A História da Saída de Christine das Testemunhas de Jeová

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O TESTEMUNHO DE CHRISTINE

Eu nasci em 1949, em Inglaterra. Quando a minha mãe estava grávida de mim, a minha tia, que era uma Testemunha de Jeová, convenceu a minha mãe a iniciar um “Estudo da Bíblia” com uma de suas amigas Testemunhas de Jeová. A mulher que estudou com a minha mãe foi considerada uma dos do “restante ungido” dos 144.0001. de que fala Apocalipse 7 e 14. Assim, a minha mãe e o meu pai juntaram-se às Testemunhas de Jeová antes de eu nascer.

A minha mãe começou a ter hemorragias durante a gravidez e quase abortou. O médico disse que ela tinha que descansar ou iria perder o seu bebé. Durante este tempo, ela orou a Jeová Deus: “Se eu tiver o bebé, eu o darei a Si e ele irá servi-Lo pelo resto da sua vida.” Fiel à sua promessa, logo depois de eu nascer, fui levada de porta-em-porta espalhando o “evangelho” das Testemunhas de Jeová com a minha mãe, todas as semanas. Assim, eu nasci numa família da Torre de Vigia e fui criada para acreditar que essa religião era a única verdade.

Ao nascer, eu tinha uma irmã que era 13 anos mais velha do que eu. Ela tornou-se, compreensivelmente, muito ciumenta de mim e começou a se rebelar contra os nossos pais. Ela causou muitos problemas à minha família porque sentiu que toda a atenção estava sendo dada a mim. Finalmente, ela se casou aos 18 anos de idade e teve um menino quando eu tinha 7 ou 8 anos de idade.

Durante esses primeiros anos, eu era uma menina muito feliz até que um dia a minha mãe me deixou sozinha com um parente próximo que vivia no andar de baixo (apartamento). Isso causou uma mudança dramática na minha vida, porque ele começou a abusar sexualmente de mim. Agradeço ao querido Senhor, que ele realmente nunca me tenha violado, mas esse evento mudou a minha vida, e eu fiquei cheia de culpa e medo da ira de Jeová Deus a partir de então.

Depois de um tempo, eu reuni coragem suficiente para dizer ao meu pai e à minha mãe o que tinha acontecido comigo. Tudo o que o meu pai disse foi: “Bem, o que queres que eu faça?” Ele então me disse que a polícia iria colocar o meu parente na prisão e perguntou: “É isso que queres? Ele estaria na prisão e o seu filho não teria o seu pai.” Ele passou a dizer: “Eu não quero ouvir sobre isso de novo”, e disse-me apenas para me manter longe dele. Como esse parente também era uma Testemunha de Jeová por essa altura, ele me avisou que se o assunto se soubesse, também traria vitupério sobre Jeová e a Sociedade Torre de Vigia e ele seria desassociado.

Daquele dia em diante, eu mudei totalmente, deixando de ser uma menina inocente e feliz para alguém que se sentia completamente sozinha, rejeitada e sem amor. Se apenas a minha mãe ou o meu pai me tivessem sentado no seu colo e explicado que o que me aconteceu não foi culpa minha, eu teria confiado neles. Em vez disso, senti que não podia mais confiar neles ou em qualquer outra pessoa, nunca mais. Eu lembro-me de pensar: “Porque Deus permite que isso tenha acontecido comigo?”

Eu só conhecia a Jeová como um grande e assustador Deus que pune o ímpio. Devido à culpa que eu sentia, também achava que o tinha deixado muito zangado comigo. Eu suava de medo; medo do que poderia acontecer comigo, mas, entretanto, o meu abusador era autorizado a levar uma vida normal, como uma Testemunha de Jeová. Ele era um Servo Ministerial e ia à tribuna no Salão do Reino para dar palestras. Eu perguntei a Deus: “Porque permite a este homem ficar impune do abuso de uma menina?” Não muito tempo depois de orar a Deus, o meu abusador foi removido da sua posição e nunca mais voltou a ela novamente. Na verdade, nunca lhe foi permitido fazer qualquer pregação ou falar em público novamente, e eu disse: “Obrigado, Jeová, por responder à minha oração!”

Mesmo com esta oração respondida, a minha vida nunca pareceu ter qualquer significado. Eu pensei que Deus já não queria saber de mim, mas de alguma forma, algo dentro de mim me deu a coragem de ir em frente. A minha mãe levava-me a pregar a cada semana e durante esses tempos vimos muita pobreza. Morávamos no sudeste de Londres, que tinha as suas áreas agradáveis, mas também havia algumas áreas em que a maioria das pessoas não queriam conhecer.

Fomos visitar um edifício, grande e velho chamado de “Casa Half Way”, usado para jovens mães solteiras e os seus bebés. O lugar estava tão sujo que eu ainda posso sentir o cheiro à medida que estou escrevendo. A experiência de visitar aquele lugar foi horrível, e eu senti pena e compaixão por aquelas pessoas. Mas, porque eu era uma Testemunha de Jeová, nunca soube como lidar com essa situação muito triste. Tudo o que pudemos oferecer-lhes foram revistas chamadas A Sentinela e Despertai! que nunca fizeram nada para ajudar a resolver os seus muitos problemas. Oh, como elas precisavam saber que Deus os amava! Mas como poderíamos dizer-lhes isso, quando, como Testemunhas de Jeová, não sabíamos que o que eles realmente precisavam era de Jesus Cristo para ajudá-los na sua condição lamentável? Nós não nos oferecemos para orar por eles, pois nós mesmos não sabíamos como orar corretamente. Portanto, não fomos capazes de ajudar essas pobres mães solteiras a melhorar as suas condições desesperadoras.

A minha viagem ao longo da estrada da vida parecia estar indo de uma situação horrível para outra. O meu pai começou a ter um  “estudo da Bíblia”, com um homem. O homem era um solitário, sem família ou amigos. No entanto, depois de algumas semanas, o meu pai convidou-o para vir morar conosco, mesmo não tendo ideia de onde este homem vinha ou quem ele realmente era. O meu pai só estava interessado em tornar este homem numa Testemunha de Jeová. Depois de um curto período de tempo este homem tornou-se “parte da família” e começou a ter um interesse em mim, por me comprar coisas como rebuçados, doces e jóias. Olhando para trás, nesta altura, parece muito estranho como a minha mãe e o meu pai não pareciam muito preocupados com o seu comportamento.

Depois de um tempo, o homem começou a tirar fotos das suas partes íntimas do corpo. Fiquei muito chocada, mas pensei que não havia nenhum modo de dizer aos meus pais, porque eles simplesmente iriam varrer para debaixo do tapete, como fizeram antes. Finalmente, uma noite ele veio realmente à entrada do meu quarto, que estava ao lado do dele. (Sim, é verdade, eles colocaram um homem de quem não sabiam nada, no quarto ao lado do meu!) Ele, então, perguntou se eu iria deixá-lo fazer-me as coisas que ele me tinha mostrado no desenho, visto que a senhora das Testemunhas de Jeová com quem ele tinha saído não o tinha deixado fazer isso com ela. Naquele momento, o meu pai apareceu e perguntou o que ele estava fazendo à porta do meu quarto. Eles foram para o seu quarto juntos e o meu pai disse-lhe para não entrar no meu quarto novamente. No entanto, ele foi autorizado a permanecer na nossa casa.

Durante esse período de tempo, os meus pais começaram a sair à pregação juntos todas as noites de quarta-feira, e eu ficava sozinha com o “pedófilo” Testemunha de Jeová a viver no andar de cima e o parente “pedófilo” Testemunha de Jeová a viver no andar de baixo. Nessa idade vulnerável, os meus pais deixavam-me sozinha a partir das 7:00 até às 23:00 e foi como viver um pesadelo aos 9 anos de idade. Mas, felizmente, nunca mais os homens se aproximaram de mim novamente. Louvado seja o Senhor!

Quando fiquei mais velha, comecei a sair com rapazes que eram Testemunhas de Jeová e todos eles me trataram com respeito. Mas quando eu tinha 15 anos, namorei um “irmão” que era dez anos mais velho do que eu. Mais tarde eu descobri que ele gostava muito de meninas jovens e agora que olho para trás para a situação, percebo que eu estava numa posição muito perigosa, visto que ele também tentou fazer sexo comigo. Eu soube mais tarde por outras “irmãs” na congregação, que ele tinha o hábito de namorar meninas muito jovens para esta finalidade. Eu podia ver que ele era um predador Testemunha de Jeová muito perigoso.

Durante o meu último ano na escola, foi-me dito pelo meu diretor de turma que eu poderia ir para a faculdade de artes, porque eu tinha um talento nessa área, mas a minha mãe insistiu que seria melhor para mim servir a Jeová em tempo integral, visto que o Armagedom estava muito perto . Assim, em vez de ir para uma faculdade de artes, quando saí da escola, eu trabalhava a tempo parcial para os meus pais na sua casa de hóspedes e ia de porta-em-porta como uma pioneira regular das Testemunhas de Jeová no resto do tempo. Foi durante esse tempo que eu conheci alguém da minha idade. À medida que nos fomos conhecendo um ao outro, nós nos apaixonamos. O seu nome é David e ele também tem o seu testemunho neste site. Ele também era um pioneiro regular e gradualmente começamos a ficar mais próximos no nosso relacionamento. Eu sabia que precisava dizer-lhe tudo o que aconteceu comigo quando era criança. Escusado será dizer, ele ficou muito zangado com esses homens, mas nós dois sabíamos que era inútil levar o problema aos anciãos, pois eles também não teriam feito nada.

Depois de namorarmos por dois anos, nos casámos quando eu tinha 18 anos e Dave tinha 20 anos de idade. Mais tarde, tivemos duas filhas adoráveis, ​​chamadas Naomi e Lisa, mas o nosso casamento não foi fácil. O abuso tinha-me afetado mais do que eu achava e fiquei muito ciumenta e possessiva. Eu sentia que havia algo faltando no meu casamento ou na minha vida. Eu me sentia muito confusa emocionalmente. Olhando para trás, agora eu sei que precisava do Senhor na minha vida. Como Testemunhas da Torre de Vigia, nós nunca rezamos um pelo outro, porque tendemos a manter as coisas para nós mesmos. Dave ainda sentia vergonha de orar com as meninas e comigo, embora ele fosse ancião.

Em meados de 1970, sofri terrivelmente com depressão crónica e foi-me receitado Valium, mas tudo o que os anciãos diziam era: “Como pode sofrer com depressão quando acredita em Jeová Deus?” Então, novamente, a culpa começou. Dentro de mim, eu me sentia indigna, culpada e com medo do que poderia acontecer comigo no Armagedom. Nos anos seguintes, mudámo-nos quatro vezes e morámos em quatro diferentes áreas do Reino Unido e Dave serviu como um ancião das Testemunhas de Jeová em muitos destes locais. Numa cidade, tentámos sentir-nos aceites em três congregações diferentes dentro da cidade, mas quanto mais estendíamos a mão, mais isolados nos sentíamos de todos. Algo grande se quebrou quando a nossa filha mais jovem, Lisa, foi desassociada em 1995. Este evento causou muita dor e stress, devido à completa falta de amor demonstrado a todos nós. Lembro-me de sentir como esta religião se tornou como blocos de cimento sobre os meus ombros.

Um dia, em desespero, clamei ao Senhor e disse-lhe: “Jesus disse: “Tomai o meu jugo, porque é benévolo e leve, mas Jeová… não é leve! É mais parecido a concreto!” Mais tarde, fiquei em casa e comecei a ler o livro de Mateus, enquanto o Dave foi a uma reunião. Quando li o capítulo oito, versículo 11, fiquei espantada ao ver que Abraão, Isaque e Jacó estarão no céu. Esse foi um momento muito decisivo para mim. Mesmo estando ainda presa pelo medo e pela culpa, os meus olhos começaram a ser abertos.

Por esta altura, Dave tinha renunciado a ser um ancião e sentia que ele estava sempre sob suspeita pelos irmãos. Isso também não me fazia sentir melhor. Finalmente, em 1999, Dave entrou na Internet e digitou “Testemunhas de Jeová”. Ele começou a ler a informação que ele achava ter sido mantida longe dele por anos, mas eu odiava ouvi-lo falar da Sociedade como ele falava. Eu gritei-lhe que ele estava a tornar-se um apóstata. Eu até orei para que Jeová fizesse explodir o seu computador e no dia seguinte isso aconteceu, o fornecimento de energia explodiu e causou uma série de prejuízos.

Finalmente, ele fez-me sentar em frente do computador e ler as informações sobre o envolvimento da Torre de Vigia como uma ONG com as Nações Unidas (que a Sociedade ensinava serem parte da fera do Apocalipse). Percebi, então, que, se para a Sociedade não era “hipócrita” ser uma ONG para ter acesso à biblioteca, por que “renunciou” tão rapidamente, assim que se tornou do conhecimento público?

Demorou um ano para que nós nos desligássemos completamente das reuniões das Testemunhas de Jeová. Isto ocorreu em Junho de 2001. Nos 18 meses seguintes, estivemos num deserto espiritual e não nos dissociámos oficialmente da Sociedade, senão depois deste tempo, mas sabíamos nos nossos corações que queríamos a Deus mais do que nunca. Então, de repente, em novembro de 2002, Dave disse que estava indo a uma igreja cristã e eu não objetei. Após 2 semanas, ele deu a sua vida a Jesus Cristo e eu fiz o mesmo duas semanas depois.

Uma transformação incrível aconteceu nas nossas vidas dentro de um espaço de tempo muito curto. Nós os dois fomos batizados em água, como seguidores de Jesus Cristo, em maio de 2003 e começámos a servir na Equipa do Ministério da igreja passado um curto período de tempo. Dave foi mesmo convidado a pregar algumas vezes na manhã de domingo. Depois de alguns meses, tanto as nossas filhas como os seus maridos também aceitaram Jesus nas suas vidas. Então, em 2006, de repente, o Senhor falou comigo e disse-me que tínhamos que mudar-nos para o exterior, o que é algo que nunca tive o desejo de fazer. O Senhor nos dirigiu a um lugar de que eu nem gostei quando fui pela primeira vez, em 1995. É um lugar muito quente e eu não gosto de calor, além de que é a 3540 km do Reino Unido. Temos duas filhas e cinco netos e à filha mais velha foi diagnosticado um linfoma do pulmão em 2005. No entanto, em obediência ao chamamento do Senhor, nós vendemos a nossa casa em Inglaterra e nos mudámos para o Chipre, em 2007.

Acreditamos que o Senhor nos direcionou a este lugar, a fim de servi-Lo mais plenamente. Muitas Testemunhas de Jeová vivem no Chipre e acreditamos que quando o Senhor decidir agitar esta religião ainda mais, muitos mais deles vão sair em liberdade do cativeiro e procurar conhecer o Senhor Jesus Cristo como seu único e verdadeiro Deus e Pai. Sabemos que o Senhor está procurando por pessoas que têm uma fé inabalável em Deus e são obedientes à Sua voz. Jesus disse: Suas ovelhas ouvirão a Sua voz e elas vão conhecê-Lo. Muitos afirmam estar falando com a voz de Jesus, mas se somos ovelhas de Jesus, vamos conhecê-Lo e segui-Lo apenas a Ele.

Sei, por experiência pessoal, como foi assustador deixar uma religião que me foi ensinada desde a infância como sendo a única “verdade”, mas quando o Senhor falou comigo diretamente, eu soube que apenas Ele me poderia libertar do meu cativeiro a um falso conceito religioso. Se você está nessa situação, peço-lhe para pedir o Senhor Jesus na sua vida e pedir-Lhe para enchê-lo com a Sua graça. Eu nem sabia o que era a graça como Testemunha de Jeová. A graça é o amor de Jesus derramado sobre nós, mesmo que não mereçamos isso e definitivamente não possamos ganhá-lo.  Efésios 1:3-8 declara:

Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo, assim como nos escolheu, nele, antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amornos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade, para louvor da glória de sua graça, que ele nos concedeu gratuitamente no Amado, no qual temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos pecados, segundo a riqueza da sua graça, que Deus derramou abundantemente sobre nós em toda a sabedoria e prudência.”2.

A graça de Deus engloba toda a boa dádiva que o Pai quer nos dar, por meio do Seu maravilhoso Filho Jesus Cristo!

No Seu Amor,

Christine

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1. Os 144.000 são encarados pela Sociedade Torre de Vigia, como os únicos escolhidos para irem para o céu.

2. Citado da Bíblia Almeida Revista e Atualizada.

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